Usando sons de outros animais para encontrar onças Pintadas.

Uma das maneiras que usamos para tentar encontrar onças pintadas aqui no Pantanal é simplesmente parando e ouvindo os sons que vem da mata. Para nós humanos percebermos uma onça andando pela mata é uma missão quase impossível. Elas andam como se fossem fantasmas. Porém os pássaros e os outros animais são muito mais alertas do que nós. Muitas vezes de posições privilegiadas, ou com um visão muito melhor que a nossa, eles conseguem enxergar esses fantasmas pintados.

Assim que percebem algo de errado eles emitem ruídos alertando os outros animais de que um grande felino esta por perto. Ainda existe muita discussão entre biólogos sobre o real motivo pelo qual eles emitem ruídos nesse caso. Estariam eles fazendo barulho para avisar a onça de que ela já foi vista e com isso alerta-la que ela perdeu o elemento surpresa? Será que é simplesmente para a onça deixa-los em paz? Ou será que é para o bem comum de todos os animais que vivem em determinada área?

Em resumo, será que as gralhas soam o alarme pra não serem comidas ou para avisar os outros animais?

Seja lá qual for o motivo isso é um fenômeno que acontece no mundo inteiro.. as prezas sempre fazem alarde quando avistam um predador! Sejam macaos fazendo ruídos quando veem um leopardo na África, veados alertando os outros sobre a presença de um tigre na India, babuínos quando avistam leões… O mesmo acontece com as onças no Pantanal. O truque é saber identificar em quais animais devemos prestar atenção.

No vídeo abaixo vc pode ouvir as duas principais espécies que prestamos atenção aqui no sul do Pantanal. Assista e aumente o volume. No começo vc pode claramente ouvir os ruídos emitidos por um Gavião-carijó. Depois vc vai ouvir o barulho de uma Gralha-pantaneira. Ambas as espécies estão alertas a presença desse lindo jovem macho de onça pintada.

Mas temos que prestar muita atenção pois as gralhas também emitem sons para um grupo de macacos pregos que estejam passando, “gritam” quando nos veem caminhando e etc… Ninguém disse que entender a língua dos animais era fácil!

Roadside Hawk

Gavião-carijó

Escrito e filmado por Adam Bannister

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Um mês na vida de uma árvore.

O Projeto Onçafari usa constantemente várias armadilhas fotográfica colocadas em locais estratégicos. Essas câneras tem um sensor de movimento que nos ajuda a identificar as areas mais usadas por onças pintadas e nos mostra onde devemos concentrar nossos esforços, já que o segredo da habituação é passar o maior tempo possível com as onças.

Não queremos apenas identificar as onças, mas tbm aprender mais sobre seus comportamentos, habitos e rotinas. Estamos constantemente aprendendo sobre esses magníficos animais. Por serem difíceis de achar e viverem em locais de difícil acesso, historicamente sabemos muito pouco sobre esses animais. As armadilhas fotográficas nos ajudam a documentar comportamentos que antes eram impossíveis de serem observados.

Nossa equipe identificou uma árvore que fica dentro dos perímetros do Refúgio Ecológico Caiman, area onde trabalhamos. Haviam várias marcas de garras em seu tronco. Deduzimos que algum felino deveria estar usando essa árvore. Então colocamos uma armadilha fotográfica em um galho. A câmera foi fixada, amarrada e deixada por um mês. Esperamos anciosos pelo resultado…
Descarregamos o cartão de memória, escolhemos os melhores vídeos, e editamos um pequeno clip. Assim vcs podem ver quais animais usaram essa árvore durante esse mês em que a câmera ficou lá registrando tudo o que acontecia. Um mês na vida de uma árvore – Acho que vcs vão achar fascinante. É até engraçado ver as coisas que acontecem na vida de uma árvore!
Em minha opinião a parte mais engraçada acontece aos 1min e 39 segundos do clip. Muito legal.

Mais uma interessante história do que acontece no Pantanal sendo revelada pelo Projeto Onçafari.

Nota: A onça pintada que aparece nesse vídeo é a Esperança. Ela recebeu o colar em Outubro de 2012 afim de sabermos exatamente qual é o território que ela ocupa. O colar registra pontos por gps, o que nos ajuda a interpretar seus movimentos. O colar caira automaticamente após dois anos.
Escrito por: Adam Bannister

A caminhada até o escritório

Demoro cerca de 20 minutos para andar até o escritório. No escritório é onde temos livros, internet e minha mesa. Mas meu trabalho verdadeiro fica bem longe dali. 90% do meu tempo fico no campo, aprendendo e procurando por sinais da ilusiva onça pintada. Tenho um dos maiores escritórios do mundo… Com mais ou menos 130 000 quilometros quadrados o Pantanal certamente é uma das maiores áreas selvagens do planeta.

Mas voltando a caminhada. Eu poderia ir de carro, mas isso me faria perder a oportunidade de diariamente ver e aprender algo novo. Prefiro andar. É muito bonito. Sempre carrego comigo minha câmera quando ando até o escritório.

Nunca se sabe o que vai se ver!

Abaixo uma seleção das fotos que tirei em minhas duas primeiras semanas de Pantanal… durante minhas caminhadas até o ecritório. Aprendi uma lição: Sempre olhar o que esta acontecendo ao meu redor, enquanto procuro por um sinal de internet…Afinal,estou trabalhando num dos lugares com a maior biodiversidade do planeta.

Aproveitem a caminhada…

I just love the blues in this picture of an old spiderweb strung up between the wires of a fence.

Adoro os tons de azul dessa foto de uma teia de aranha feita entre dois fios de cerca.

The setting sun often throws out the most beautiful colours. An everyday scene can be transformed momentarily into a real spectacle.

Lindas cores no pôr do Sol. Uma cena comum que em momentos se transforma em espetáculo.

The football (soccer) field just after the sun has risen. The dew still thick on the lush lawn.

O campo de futebol logo após o Sol nascer. Ainda da pra ver o orvalho.

Gray-breasted Martins gather as the sun rises.

Andorinhas ao nascer do Sol.

A recently born calf. Each day I watch this beautiful creature growing up. Of course I greet him each morning in my best portuguese "Bom dia".

Um boi recém nascido. Vejo ele crescer todos os dias.

The bridge over which I walk each day.

A ponte que atravesso todos os dias.

Turquoise-fronted Amazon - one of the nosiest birds in the Pantanal

Papagaio, um dos pássaros mais barulhentos do Pantanal

A Plumbeous Ibis searches the water for a small meal.

Curicaca procurando sua refeição.

Guests at Caiman Ecological Refuge go out for guided afternoon paddle. Going out on the canoes changes the whole perspective and allows for incredibly close and intimate encounters with wonderful birdlife.

Hóspedes do Refúgio Ecológico Caiman durante um passeio de canoa. Um ótimo jeito de chegar ainda mais perto dos pássaros.

Written and photographed by Adam Bannister

A onça rouba a cena!

Montamos a armadilha fotográfica na posição perfeita para filmar o animal que viesse se alimentar da carcaça. Este é um procedimento normal da equipe de habituação de onças pintadas. Saímos cedo todas as manhãs e procuramos onças. Se encontramos uma carcaça, colocamos uma armadilha fotográfica filmando a carcaça. Fazemos isso para que possamos aprender sobre os hábitos das onças, sobre suas interações sociais, descobrir quais onças foram na carcaça e o número delas que ocupam uma certa área.

De manhã fomos para a carcaça para avaliar o que havia acontecido durante a noite. Alguma coisa havia se alimentado da carcaça e a arrastado para o lado. Nós estávamos entusiasmados para ver as imagens da armadilha fotográfica e ver quais os animais que haviam estado por ali. Será que era uma onça pintada? Mas onde havia ido parar a armadilha fotográfica?!

Ela tinha sumido! Desapareceu sem deixar vestígios. Três pessoas da equipe vasculharam a área como se fosse uma cena de crime. Olhando fixamente para o chão, nós fizemos a varredura de cada centímetro de areia procurando qualquer evidência do que poderia ter acontecido. Encontramos a câmera a cerca de 30 metros de distância de sua posição original, jogada numa moita de capim. Ainda bem! Pois como explicaríamos para o chefe que a câmera tinha sumido?

Fizemos apostas sobre quem tinha movido a câmera. O Nego apostou que tinha sido um queixada, o Diogo optou pelo mais provável… os lobinhos. Só me restou apostar no mais improvável … uma onça! Voltamos para a base para baixar o cartão de memória. Sentamos paralisados assistindo os vídeos, um por um.

A culpada era uma jovem onça pintada fêmea, de mais ou menos 15 meses. O Projeto Onçafari nomeou esta onça de Garoa e temos acompanhado ela desde o começo de sua vida. Ela se alimentou brevemente da carcaça antes de decidir que a armadilha fotográfica parecia mais atraente. Ela caminhou até ela e a pegou em sua boca.

Diogo setting the camera trap up.

Diogo colocando a armadilha fotográfica.

Ready for action...

Pronta para filmar…

Ela começou lambendo a câmera, mordeu um pouco, brincou com ela e a levou para um passeio. 15 minutos de diversão, tudo gravado na câmera. Não da pra dizer que essa onça não tem um bom senso de humor!

As onças pintadas têm as mandíbulas mais fortes de todos os felinos, por isso tivemos muita sorte de encontrar a câmera… ainda por cima funcionando!

The culprit...a young female Jaguar

A culpada…uma jovem onça fêmea

Escrito por Adam Bannister
Armadilha Fotográfica – Projeto Onçafari
Fotos – Adam Bannister

Porquinho da índia Gigante

Tudo depende de qual parte do mundo você vem. Na África do Sul, consideramos porquinhos da Índia como animais de estimação bonitinhos e mantidos por crianças em gaiolas cheias  de serragem como se fossem roupas de cama. Eles têm nomes como George, Fluffy e Banjo. No Equador, exatamente o mesmo animal é considerado uma grande refeição, apreciada com uma cerveja bem gelada. O mundo é realmente estranho.

Agora pegue um porquinho da India e encha-o de testosterona. Eventualmente você pode simplesmente transformar esse porquinho da Índia bonitinho em uma capivara. Bem, não realmente, mas quase….

A side profile of this curious creature

Perfil dessa criatura curiosa

A capivara é o maior roedor do mundo! Nativa da América do Sul, a capivara habita savanas e florestas densas e vive perto de corpos de água. Elas são extremamente sociais. Aqui no Refúgio Ecológico Caiman muitas vezes encontramos grupos de até vinte delas,  felizes e “pastando” juntas. Do que exatamente você chama um grupo de capivaras? Você pode acreditar que em média  elas tem 50 kg de peso e o recorde mundial é de 91 kg de puro roedor? Do seu jeito, não posso negar que elas são muito bonitas.

A capybara should be able to live up to 10 years in the wild, but with high predation they are lucky to live to 4 or 5.

A capivara deveria ser capaz de viver até 10 anos na natureza, mas com alta predação elas têm a sorte se viverem  4 ou 5.

Em uma longa caminhada no Pantanal pode ser muito divertido parar e sentar-se calmamente em meio a uma família dessas criaturas peludas. Assista-as  se alimentando e interagindo umas com as outras. Também vale a pena escutar… através de uma série de grunhidos incomuns elas estão sempre se comunicando umas com as outras. Eu acho que elas estão tentando tranquilizar o macho dominante de que ele ainda está no controle. Você vai perceber qual é esse macho … ele tem uma glândula muito estranha na parte superior do nariz. Elas são animais  bem estranhos de fato mas adicionam grande valor para qualquer visita ao Pantanal.

You can see the gland on the top of the nose of the male. It is assumed that this gland secretes a substance that is used to help mark territory.

Aqui você pode ver glândula na parte superior do nariz do macho. Supõe-se que essa glândula secreta uma substância que é utilizada para ajudar a marcar território

Out in the open

A céu aberto

Capybaras love to swim. If you inspect the face you will see the nose, ears and  eyes are all placed high up on the face. This makes swimming easier.

Capivaras gostam de nadar. Se você olhar bem para cara delas vai ver que o nariz, as orelhas e os olhos estão todos colocados no alto da face. Isto torna mais fácil sua natação.

The webbed feet also aid in swimming. Capybara face predation from Jaguar, Caiman and Anacondas

O formato dos pés também ajudam a nadar. Capivaras são predadas por onças, jacarés e sucuris.

Capybaras are coprophagous, meaning they eat their own feces. This helps to   digest the cellulose in the grass that forms their normal diet.

Capivaras comem as próprias fezes. Isto ajuda a digerir a celulose no capim, que forma a sua dieta normal.

Escrito e fotografado por Adam Bannister

Onça Pintada ignora carcaça

Encontramos a carcaça de um boi nas primeiras horas do dia. Aparentemente sem nenhuma onça por perto, nos aproximamos da mata para investigar. Ficou muito claro que uma onça tinha enfincado seus dentes nas vértebras do boi. A onça pintada têm a mordida mais forte de todos os felinos, capaz de morder com uma pressão tremenda. Dizem que ela tem uma mordida duas vezes mais forte que a de um leão, e  a segunda mais forte de todos os mamíferos, mais fraca apenas que a da a hiena. Depois de investigar as feridas pudemos ver em primeira mão o poder notável destes gatos.

 

Tomamos notas, tiramos fotografias e colocamos uma armadilha fotográfica com infravermelho próxima a carcaça. Em primeiro lugar, queríamos ver se a onça voltaria para a carcaça fresca, e também saber qual onça tinha sido responsável por esta predação.

 

Voltamos tarde da noite para ver se teríamos um avistamento de qual era o gato em questão. Condições chuvosas, no entanto, fez nossa abordagem muito difícil e logo estávamos atolados na lama. Decidimos deixar a armadilha fotográfica fazer o seu trabalho. Voltamos no dia seguinte para recuperar o cartão de memória da armadilha fotográfica. A carcaça tinha sido um pouco comida e arrastada cerca de dois metros de distância. Novas pegadas de uma onça fêmea indicava que provavelmente ela tinha passado por ali algumas horas atrás.

 

As curtas sequências de vídeo captadas pela armadilha fotográfica contam uma história fascinante. No decorrer da noite, uma grande onça macho, conhecida pelo projeto como Fantasma surge da escuridão. Ele passa confiantemente pelo boi morto e demonstra pouco interesse pela carcaça fresca, ele  parece quase não perceber que ela estava ali!

 

Cerca de duas horas e meia mais tarde uma  onça fêmea conhecida como Esperança chega ao local. Ela arrasta a carcaça e se alimenta. Isso me leva a acreditar que foi essa fêmea que matou o boi. Ela pode ser identificada nos vídeos pela presença de um rádio colar. Este colar foi colocado em outubro de 2012 e nos permite usar a telemetria para nos mostrar sua posição, seu território e área de vida. O habitat que ela usa é tão difícil de navegar, que este colar nos permite uma olhadinha em sua vida secreta.

 

Abaixo você pode ver a sequência de vídeos capturado pela armadilha fotográfica. Note que a cerca em vista é uma cerca de gado e não impede os movimentos dos animais silvestres.

A razão pela qual o grande macho ignorou uma boa refeição, eu não sei e o fato de isso ter acontecido realmente me surpreende! Com toda minha experiência com grandes felinos em todo o mundo, eu nunca vi um gato não mostram interesse em carne fresca disponível. Eu já os vi farejar e decidir que a carne não era do seu agrado ou que estava muito velha. Também já vi gatos tentarem localizar uma carcaça pelo cheiro e por pouco não achar sua posição, mas eu nunca vi um gato simplesmente encontrar uma carcaça e não mostram nenhum interesse por ela … nem mesmo farejar ou por a pata nela!

 

Mais um ponto fascinante sobre o comportamento das onças pintadas a ser descoberto pela equipe do Projeto Onçafari, com base aqui no Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal. Adoraríamos ouvir seus comentários ou teorias a respeito de porque ele pode ter simplesmente passado pela carcaça sem demonstrar nenhum interesse.

Fantasma:  the large male Jaguar - Diogo

Fotografia do Fantasma no Refúgio Ecológico Caiman (setembro de 2012) – Diogo Lucatelli

 

Escrito por: Adam Bannister
Fotos: Diogo Lucatelli
Armadilha Fotográfica: Projeto Onçafari

Observando Aves no Pantanal

“O Pantanal tem a maior concentração de fauna nas Americas… Os estrangeiros conhecem apenas a Amazônia” – Dr. Maria Tereza Jorge Pádua, ex-Presidente do IBAMA.

Pode-se dizer grosseiramente que há aproximadamente 9000 especies de aves no planeta Terra. Este número muda e continuará mudando a cada ano com as lutas dos ornitólogos sobre ‘agrupamentos’, ‘isolamento’ e classificação de novas espéties. Mas estou safisfeito com ‘9000’.

Deixe-me passar-lhes alguns números…

1/3 de todas as espécies de aves são encontradas na América do Sul.
1600 presentes no Brasil.
694 espécies de aves no Pantanal e áreas de entorno.
– 51 das quais endêmicas no Brasil
– 33 das quais quase-endêmicas
800 espécies de aves são encontradas em todo o continente norte-americano.
Existem mais que 230 espécies de tiranídeos no Brasil.

É alarmante, no entanto, que apenas cerca de 1,5% do Pantanal esteja sob proteção governamental. O resto da área está sob propriedade particular. Daí o papel crucial de fazendas como o Refúgo Ecológico Caiman na conservação do Pantanal: protegendo os habitats e mantendo o ecossistema.

Abaixo, uma seleção de imagens que consegui capturar, mostrando apenas algumas das aves que fazem do Refúgio Ecológico Caiman sua casa. Com certeza haverão muitas outras… afinal, este é o paraíso dos birdwatchers!

Guira Cuckoo

Anu-branco

A Laughing Falcon

Acauã

A Black-collared Hawk grabs a snail from a small pond

Gavião-belo pega um caramujo em uma poça d’água

A Savanna Hawk

Gavião-caboclo

A Buff-necked Ibis

Curicaca

A pair of Hyacinth Macaws

Casal de Araras-azuis

Vultures gather above a fresh carcass

Urubus se reúnem sobre uma carcaça fresca

White Woodpecker

Birro

Yellow-headed Vulture

Urubu-de-cabeça-amarela

A pair of Chaco Puffbirds is woken up

Um casal de Rapazinho-do-chaco é despertado

Nacunda Nighthawk

Corucão

Burrowing Owil

Coruja-buraqueira

A Common Potoo sits on its favourite fence post

Um Urutau no seu poste preferido

A male Saffron Finch

Um macho de Canário-da-terra

Texto e fotos por Adam Bannister